Depois da caneta

Quanto o peso costuma voltar quando o remédio para, do que isso depende, e a pergunta que importa mais: o que você constrói enquanto emagrece.

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A caneta e depois

≈10 kg
é quanto o peso costuma voltar, em média, ao parar as canetas mais potentes (semaglutida, tirzepatida).
Berg, Obesity Reviews 2025 · em proporção, o corpo recupera perto de 60% de tudo o que havia perdido no primeiro ano (Budini, eClinicalMedicine 2026).

Quase toda semana alguém me pergunta no consultório: "Doutor, e quando eu parar a caneta?" Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes de todo o tratamento. Porque perder peso é uma etapa. Construir um organismo capaz de sustentar essa mudança é outra.

Deixa eu te contar sobre uma paciente. Ela tinha emagrecido quinze quilos com a medicação. Seis meses depois de suspender, tinha recuperado quase tudo, e me perguntou, entre o susto e a culpa, se o problema era falta de força de vontade. Julgar não trata ninguém. O que aconteceu com ela tem nome, tem mecanismo e tem como prevenir.

Por que o peso volta

Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida imitam um hormônio que o próprio intestino produz e atuam sobre os mecanismos da fome e da saciedade. O apetite diminui, aquele barulho constante da vontade de comer silencia, você come menos, e o peso desce. Quando o tratamento é suspenso, parte desse efeito desaparece.

Além disso, o próprio emagrecimento provoca adaptações. A fome pode aumentar, a saciedade diminuir e o gasto de energia se ajustar. O corpo defende o próprio peso como um termostato defende a temperatura, e tende a puxar de volta para onde estava. Isso ajuda a explicar por que reduzir tudo a "força de vontade" é insuficiente. Existe fisiologia por trás do reganho, e os estudos mostram isso com bastante clareza.

O que os estudos mostram

Para você confiar no que vem a seguir: isto não vem de um estudo isolado. Pesquisadores reuniram dezenas de trabalhos e os analisaram juntos. Quando muitos estudos apontam para o mesmo lugar, a resposta fica mais firme.

1. Quanto volta depende de qual caneta. Os remédios mais potentes trazem de volta cerca de 10 quilos em média.1

2. Volta aos poucos, ao longo de meses. Em cerca de um ano, o corpo recupera perto de 60% do que havia perdido, e ali tende a estabilizar.2 Isso abre uma janela: nos primeiros meses depois de parar, o peso ainda sobe devagar, tempo suficiente para o músculo que você construiu segurar parte do caminho de volta. Quem chega nessa fase já com força e proteína em dia atravessa a maré com muito menos reganho do que quem só reage quando a balança dispara.

3. Em geral não se volta ao ponto de partida. Somando os estudos, quem parou termina, na média, cerca de 2 quilos abaixo de onde começou.3 É pouco, e eu prefiro dizer isso com todas as letras: é justamente por ser pouco que o que você constrói durante o tratamento decide o tamanho do que sobra depois dele.

E o outro lado: quem continua o remédio mantém o resultado. No estudo SURMOUNT-4, com a tirzepatida, a diferença entre parar e continuar foi grande ao fim do período.4 Traduzindo em gente: pense em duas pessoas de 100 quilos que emagreceram juntas; um ano depois, quem continuou o remédio estava perto de 19 quilos mais leve do que quem parou. Isso reforça um conceito importante: a obesidade é uma doença crônica, e para algumas pessoas o tratamento poderá ser de longo prazo. A decisão precisa ser individual, construída com o seu médico. Uma medicação assim é uma ferramenta terapêutica, e uma boa ferramenta trabalha dentro de uma estratégia maior: retirá-la a qualquer custo faz tão pouco sentido quanto transformá-la no tratamento inteiro.

O que a balança não mostra

Existe outra história acontecendo enquanto o peso cai. Parte do que se perde é massa magra, o tecido que inclui o músculo. E músculo significa força, funcionalidade, melhor uso da glicose e autonomia ao longo da vida. É também um tecido que produz sinais, as mioquinas, que conversam com o corpo inteiro e ajudam a controlar a inflamação, o açúcar no sangue e até o humor.

Sabemos: emagrecer rápido custa músculo. Entre 25% e 40% do peso perdido pode vir de massa magra,5 e isso acompanha qualquer emagrecimento grande, com remédio ou sem. A conta vem da velocidade e do tamanho da perda.

Ainda não sabemos com certeza: nesses estudos mediram peso e cintura, e não um exame que separe, no reganho, quanto é gordura e quanto é músculo. Há uma pista: a cintura volta a crescer proporcionalmente menos que o peso, o que sugere que parte do que retorna se acomoda como gordura.1 É uma pista, e é exatamente ela que dá para prevenir construindo músculo antes.

Por isso, quando acompanho alguém emagrecendo, a pergunta que me interessa vai além de quantos quilos se foram: o que existe dentro dos quilos que ficaram?

A balança conta apenas uma parte da história. O que muda a saúde é do que esse peso é feito, muito mais do que o número embaixo dos seus pés.

Na prática

Cinco decisões que mudam o depois

1. Construa o alicerce durante o uso. Proteína e treino de força começam no primeiro dia da medicação, não quando ela termina.

2. Proteína em cada refeição. Cerca de 1,6 g por quilo de peso por dia, distribuída ao longo do dia. Mas proteína sozinha não faz milagre: ela precisa do par certo, o treino.6

3. Treino de força 2 a 3 vezes por semana. O estímulo que avisa ao corpo para não desmontar o músculo. Musculação, elástico, o peso do corpo. O que importa é a carga e a constância.6

4. Não suspenda sozinho, nem de repente. Combine com seu médico a redução e um plano de manutenção. A saída é tão importante quanto a entrada.

5. Meça mais do que a balança. Cintura, força para subir escada, disposição no fim do dia. E, quando puder, um exame de composição corporal: a bioimpedância, disponível em muitas academias e clínicas, estima quanto do seu peso é músculo e quanto é gordura. Ela também tem limites: o resultado varia com hidratação, horário e aparelho. Use sempre o mesmo equipamento, em condições parecidas, e olhe a tendência ao longo dos meses, não o número de um dia.

Para guardar

Quando o remédio para, o peso tende a voltar, aos poucos, ao longo de cerca de um ano, e o quanto volta depende de qual caneta. Boa parte disso dá para amortecer construindo músculo antes: proteína e treino de força, juntos, são o que sobra quando o remédio sai de cena. E, se chegar o momento de reduzir ou suspender, essa transição também se planeja. A saída faz parte do tratamento.

Por que esta newsletter existe

Talvez essa seja uma das coisas que mais aprendi exercendo medicina em dois cenários tão diferentes. Na UTI, acompanho o organismo em momentos de extrema vulnerabilidade: ali, reserva muscular, metabolismo, nutrição, inflamação, sono e função cardiovascular deixam de ser conceitos abstratos e passam a decidir a capacidade de uma pessoa atravessar uma doença grave e se recuperar. No consultório, encontro esses mesmos mecanismos em outro momento da história: antes da perda de funcionalidade, antes de algumas doenças se manifestarem plenamente, antes que a reserva fisiológica seja colocada à prova.

Conviver com esses dois extremos me fez olhar cada vez menos para variáveis isoladas e cada vez mais para as relações entre elas: metabolismo conversa com músculo, músculo conversa com glicose, sono interfere na fome e na recuperação, movimento modifica a capacidade funcional. Foi desse olhar, construído na integração entre cardiologia, nutrologia e terapia intensiva, que nasceu o Método PRIME, e no centro dele o Ciclo de Restauração Metabólica, o CRM, que organiza o cuidado em pilares interdependentes: alimentação, atividade física, sono, estresse e saúde mental, microbiota e metabolismo, equilíbrio hormonal, controle da inflamação e flexibilidade metabólica.

É por isso que, diante de alguém usando uma medicação para emagrecer, a pergunta que realmente me interessa é: que saúde estamos construindo enquanto esse peso vai embora? É essa pergunta que a Longevida persegue toda semana.

A caneta pode abrir uma janela. O CRM organiza o que precisa ser construído enquanto ela está aberta. E o objetivo, no fim, é maior do que pesar menos: é funcionar melhor, ter mais reserva, preservar autonomia e construir saúde para viver mais e viver melhor.

Restauração, não restrição.

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Referências

  1. Berg S, Stickle H, Rose SJ, Nemec EC. Discontinuing GLP-1 RA and body habitus: revisão sistemática e metanálise. Obesity Reviews. 2025.
  2. Budini B, Luo S, Tam M, et al. Trajectory of weight regain after cessation of GLP-1 RA: revisão sistemática e meta-regressão. eClinicalMedicine. 2026.
  3. Zhou, et al. Effects of GLP-1 RA after treatment withdrawal: revisão sistemática e metanálise. J Gen Intern Med. 2025. (Efeito líquido após a parada: −2,32 kg [IC 95% −4,21 a −0,43].)
  4. Aronne LJ, et al. SURMOUNT-4. JAMA. 2024. PMID 38078870. (Diferença parar vs continuar: −19,4 pontos percentuais [IC 95% −21,2 a −17,7].)
  5. Prado CM, et al. Muscle matters. Lancet Diabetes Endocrinol. 2024. PMID 39265590.
  6. Sardeli AV, et al. Nutrients. 2018. PMID 29587357 (alvo proteico: Bauer J, et al. PROT-AGE. JAMDA. 2013).
Dr. Frederico Ligeiro Medeiros
Cardiologista, Nutrólogo e Intensivista · CRM-MT 6489 · CRM-SP 165986 · RQE 5316 (Cardiologia) · RQE 6749 (Nutrologia)
Conteúdo educativo. Não substitui a consulta médica individual. Decisões sobre iniciar, manter, ajustar ou suspender qualquer medicação devem ser tomadas com o seu médico.