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# Depois da caneta
- URL: https://longevida.drfredericomedeiros.com.br/depois-da-caneta/
- Published: 2026-09-08T18:01:27.000Z
- Updated: 2026-09-08T18:01:27.000Z
- Description: Quanto o peso costuma voltar quando o remédio para, do que isso depende, e a pergunta que importa mais: o que você constrói enquanto emagrece.
- Author: FREDERICO LIGEIRO MEDEIROS
- Tags: Nutrologia & Metabolismo, Prevenção & Longevidade, Alimentação na prática

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A caneta e depois

| ≈10 kg | é quanto o peso costuma voltar, em média, ao parar as canetas mais **potentes** (semaglutida, tirzepatida).Berg, Obesity Reviews 2025 · em proporção, o corpo recupera perto de 60% de tudo o que havia perdido no primeiro ano (Budini, eClinicalMedicine 2026). |
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Quase toda semana alguém me pergunta no consultório: "Doutor, e quando eu parar a caneta?" Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes de todo o tratamento. Porque perder peso é uma etapa. Construir um organismo capaz de sustentar essa mudança é outra.

Deixa eu te contar sobre uma paciente. Ela tinha emagrecido quinze quilos com a medicação. Seis meses depois de suspender, tinha recuperado quase tudo, e me perguntou, entre o susto e a culpa, se o problema era falta de força de vontade. Julgar não trata ninguém. O que aconteceu com ela tem nome, tem mecanismo e tem como prevenir.

## Por que o peso volta

Medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida imitam um hormônio que o próprio intestino produz e atuam sobre os mecanismos da fome e da saciedade. O apetite diminui, aquele barulho constante da vontade de comer silencia, você come menos, e o peso desce. Quando o tratamento é suspenso, parte desse efeito desaparece.

Além disso, o próprio emagrecimento provoca adaptações. A fome pode aumentar, a saciedade diminuir e o gasto de energia se ajustar. O corpo defende o próprio peso como um termostato defende a temperatura, e tende a puxar de volta para onde estava. Isso ajuda a explicar por que reduzir tudo a "força de vontade" é insuficiente. Existe fisiologia por trás do reganho, e os estudos mostram isso com bastante clareza.

## O que os estudos mostram

Para você confiar no que vem a seguir: isto não vem de um estudo isolado. Pesquisadores reuniram dezenas de trabalhos e os analisaram juntos. Quando muitos estudos apontam para o mesmo lugar, a resposta fica mais firme.

**1\. Quanto volta depende de qual caneta.** Os remédios mais potentes trazem de volta cerca de 10 quilos em média.1

**2\. Volta aos poucos, ao longo de meses.** Em cerca de um ano, o corpo recupera perto de 60% do que havia perdido, e ali tende a estabilizar.2 Isso abre uma janela: nos primeiros meses depois de parar, o peso ainda sobe devagar, tempo suficiente para o músculo que você construiu segurar parte do caminho de volta. Quem chega nessa fase já com força e proteína em dia atravessa a maré com muito menos reganho do que quem só reage quando a balança dispara.

**3\. Em geral não se volta ao ponto de partida.** Somando os estudos, quem parou termina, na média, cerca de 2 quilos abaixo de onde começou.3 É pouco, e eu prefiro dizer isso com todas as letras: é justamente por ser pouco que o que você constrói durante o tratamento decide o tamanho do que sobra depois dele.

**E o outro lado:** quem continua o remédio mantém o resultado. No estudo SURMOUNT-4, com a tirzepatida, a diferença entre parar e continuar foi grande ao fim do período.4 Traduzindo em gente: pense em duas pessoas de 100 quilos que emagreceram juntas; um ano depois, quem continuou o remédio estava perto de 19 quilos mais leve do que quem parou. Isso reforça um conceito importante: a obesidade é uma doença crônica, e para algumas pessoas o tratamento poderá ser de longo prazo. A decisão precisa ser individual, construída com o seu médico. Uma medicação assim é uma ferramenta terapêutica, e uma boa ferramenta trabalha dentro de uma estratégia maior: retirá-la a qualquer custo faz tão pouco sentido quanto transformá-la no tratamento inteiro.

## O que a balança não mostra

Existe outra história acontecendo enquanto o peso cai. Parte do que se perde é massa magra, o tecido que inclui o músculo. E músculo significa força, funcionalidade, melhor uso da glicose e autonomia ao longo da vida. É também um tecido que produz sinais, as mioquinas, que conversam com o corpo inteiro e ajudam a controlar a inflamação, o açúcar no sangue e até o humor.

| **Sabemos:** emagrecer rápido custa músculo. Entre 25% e 40% do peso perdido pode vir de massa magra,5 e isso acompanha qualquer emagrecimento grande, com remédio ou sem. A conta vem da velocidade e do tamanho da perda. **Ainda não sabemos com certeza:** nesses estudos mediram peso e cintura, e não um exame que separe, no reganho, quanto é gordura e quanto é músculo. Há uma pista: a cintura volta a crescer proporcionalmente menos que o peso, o que sugere que parte do que retorna se acomoda como gordura.1 É uma pista, e é exatamente ela que dá para prevenir construindo músculo antes. |
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Por isso, quando acompanho alguém emagrecendo, a pergunta que me interessa vai além de quantos quilos se foram: o que existe dentro dos quilos que ficaram?

| A balança conta apenas uma parte da história. O que muda a saúde é do que esse peso é feito, muito mais do que o número embaixo dos seus pés. |
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| Na prática Cinco decisões que mudam o depois **1\. Construa o alicerce durante o uso.** Proteína e treino de força começam no primeiro dia da medicação, não quando ela termina. **2\. Proteína em cada refeição.** Cerca de 1,6 g por quilo de peso por dia, distribuída ao longo do dia. Mas proteína sozinha não faz milagre: ela precisa do par certo, o treino.6 **3\. Treino de força 2 a 3 vezes por semana.** O estímulo que avisa ao corpo para não desmontar o músculo. Musculação, elástico, o peso do corpo. O que importa é a carga e a constância.6 **4\. Não suspenda sozinho, nem de repente.** Combine com seu médico a redução e um plano de manutenção. A saída é tão importante quanto a entrada. **5\. Meça mais do que a balança.** Cintura, força para subir escada, disposição no fim do dia. E, quando puder, um exame de composição corporal: a bioimpedância, disponível em muitas academias e clínicas, estima quanto do seu peso é músculo e quanto é gordura. Ela também tem limites: o resultado varia com hidratação, horário e aparelho. Use sempre o mesmo equipamento, em condições parecidas, e olhe a tendência ao longo dos meses, não o número de um dia. |
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## Para guardar

Quando o remédio para, o peso tende a voltar, aos poucos, ao longo de cerca de um ano, e o quanto volta depende de qual caneta. Boa parte disso dá para amortecer construindo músculo antes: proteína e treino de força, juntos, são o que sobra quando o remédio sai de cena. E, se chegar o momento de reduzir ou suspender, essa transição também se planeja. A saída faz parte do tratamento.

| Por que esta newsletter existe Talvez essa seja uma das coisas que mais aprendi exercendo medicina em dois cenários tão diferentes. Na UTI, acompanho o organismo em momentos de extrema vulnerabilidade: ali, reserva muscular, metabolismo, nutrição, inflamação, sono e função cardiovascular deixam de ser conceitos abstratos e passam a decidir a capacidade de uma pessoa atravessar uma doença grave e se recuperar. No consultório, encontro esses mesmos mecanismos em outro momento da história: antes da perda de funcionalidade, antes de algumas doenças se manifestarem plenamente, antes que a reserva fisiológica seja colocada à prova. Conviver com esses dois extremos me fez olhar cada vez menos para variáveis isoladas e cada vez mais para as relações entre elas: metabolismo conversa com músculo, músculo conversa com glicose, sono interfere na fome e na recuperação, movimento modifica a capacidade funcional. Foi desse olhar, construído na integração entre cardiologia, nutrologia e terapia intensiva, que nasceu o **Método PRIME**, e no centro dele o **Ciclo de Restauração Metabólica**, o CRM, que organiza o cuidado em pilares interdependentes: alimentação, atividade física, sono, estresse e saúde mental, microbiota e metabolismo, equilíbrio hormonal, controle da inflamação e flexibilidade metabólica. É por isso que, diante de alguém usando uma medicação para emagrecer, a pergunta que realmente me interessa é: que saúde estamos construindo enquanto esse peso vai embora? É essa pergunta que a Longevida persegue toda semana. |
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| A caneta pode abrir uma janela. O CRM organiza o que precisa ser construído enquanto ela está aberta. E o objetivo, no fim, é maior do que pesar menos: é funcionar melhor, ter mais reserva, preservar autonomia e construir saúde para viver mais e viver melhor. |
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Restauração, não restrição.

| Se esta edição te ajudou a entender algo importante, encaminhe para alguém que está pensando em começar, ou parar, a caneta. É assim que a Longevida cresce. **Recebeu esta edição de alguém?** [Assine a Longevida](https://longevida.drfredericomedeiros.com.br/#/portal/signup) e receba a próxima no seu e-mail. |
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Referências

1. Berg S, Stickle H, Rose SJ, Nemec EC. Discontinuing GLP-1 RA and body habitus: revisão sistemática e metanálise. Obesity Reviews. 2025.
2. Budini B, Luo S, Tam M, et al. Trajectory of weight regain after cessation of GLP-1 RA: revisão sistemática e meta-regressão. eClinicalMedicine. 2026.
3. Zhou, et al. Effects of GLP-1 RA after treatment withdrawal: revisão sistemática e metanálise. J Gen Intern Med. 2025\. (Efeito líquido após a parada: −2,32 kg \[IC 95% −4,21 a −0,43\].)
4. Aronne LJ, et al. SURMOUNT-4\. JAMA. 2024\. PMID 38078870\. (Diferença parar vs continuar: −19,4 pontos percentuais \[IC 95% −21,2 a −17,7\].)
5. Prado CM, et al. Muscle matters. Lancet Diabetes Endocrinol. 2024\. PMID 39265590.
6. Sardeli AV, et al. Nutrients. 2018\. PMID 29587357 (alvo proteico: Bauer J, et al. PROT-AGE. JAMDA. 2013).

| Dr. Frederico Ligeiro MedeirosCardiologista, Nutrólogo e Intensivista · CRM-MT 6489 · CRM-SP 165986 · RQE 5316 (Cardiologia) · RQE 6749 (Nutrologia) Conteúdo educativo. Não substitui a consulta médica individual. Decisões sobre iniciar, manter, ajustar ou suspender qualquer medicação devem ser tomadas com o seu médico. |
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